domingo, 25 de setembro de 2011

Desafios do FAAL nas trilhas do cineclubismo, por Darcel Andrade http://www.bodocongo.com/2011/07/cineclubes-e-educacao.html

Cineclubes e Educação


Desafios do FAAL nas trilhas do cineclubismo brasileiro
Enviado por Gilvan Dockhorn – 01/07/2011
Cineclubistas
Segue um excelente artigo do camarada cineclubista Darcel, em que destaca a região Amazônica, mas cabe em qualquer espaço de discussão cineclubista do país.
Abraços,
Por Darcel Andrade Alves [1]
O Cinema Brasileiro amplia seu olhar para a Amazônia, ainda que não seja uma película 35mm ou cinemão, como muitos realizadores referendam, a produção audiovisual chega às aldeias e comunidades tradicionais na sua mais diversificada forma de criação. A espera do “novo”, que nunca chega, faz com que os realizadores ribeirinhos, quilombolas, indígenas e lideranças comunitárias se manifestem em favor de uma causa coletiva que, há algum tempo, se prolifera em rodas de conversas em comunidades e beira de rio. Portanto, este ensaio traz à tona o 1º Fórum Audiovisual da Amazônia Legal que se configura em rede nacional, para tratar questões específicas de uma região rica em biodiversidade, e busca instrumentos reguladores legais de valorização aos saberes dos povos tradicionais amazônicos, sendo o cinema e a produção audiovisual trilhas nesta “selva capital” de interesses outros; traz também contribuições às proposições da Carta de Atibaia, instrumento síntese do encontro nacional de Cineclubistas em São Paulo, como reforço às políticas culturais para o audiovisual na Amazônia Legal.     
Palavras-chaves: Cinema; Educação; Cineclubismo; Amazônia Legal
Neste ensaio, aproprio-me da liberdade poética para registrar um recorte de uma realidade vista de dentro pra fora, e saio da primeira pessoa para viver um Amazônida, filho de índia e caboclo paraense, e que transita “pelos salões, pelas casas, pelas cidades, pelos congressos, pelos guetos, trilhas, rios, vilas e aldeias” e que gosta de cinema, o bom cinema (penso), e acredita no cinema brasileiro.
O Cinema Brasileiro amplia seu olhar para a Amazônia, ainda que não seja uma película 35mm ou cinemão, como muitos realizadores referendam, a produção audiovisual chega às aldeias e comunidades tradicionais na sua mais diversificada forma de criação, como semente semeadora, seja na filmadora digital sedutora de melhor resolução, seja no mais simples dos celulares com olho eletrônico.
A espera do “novo”, que nunca chega, fez com que os realizadores ribeirinhos, quilombolas, indígenas e lideranças comunitárias se manifestassem em favor de uma causa coletiva que, há algum tempo, se prolifera em rodas de conversas em comunidades e beira de rio: o cinema papa-chibé; uma ação audiovisual alimentada com motor a diesel, um projetor, e uma caixa amplificadora com duvidosa qualidade de som. Sim, porque ouvir a narrativa sonora do filme e o ronco do motor-gerador, mais o pô-pô-pô dos barcos que atracam no porto atraídos pela novidade, é querer gostar muito de cinema. É um novo que se conquista pelo esforço do próprio nativo empreendedor, na busca de uma alternativa para realizar e compartilhar seu sonho – fazer cineclubismo sem saber as implicações de sua atitude.
Saindo deste extremo, nos aproximamos de outras realidades mais privilegiadas, de comunidades ditas tradicionais que possuem certa infra-estrutura para exibir filmes, onde a “civilização” da energia elétrica se faz presente. Aqui encontramos grupos mais organizados e, certamente, algum profissional com acesso às informações socializadas pelo ciberespaço, onde pesca saberes compartilhados que caem em sua rede [virtual], um tal de edital – esses tão famigerados regulamentos cheios de regrinhas e pré-requisitos, exige experiências e um currículo exemplar. Na revolta da maré, o curioso pesquisador busca informações de como concorrer às vagas na seleção de melhor roteiro, melhor projeto audiovisual, e tenta decifrar os códigos da incompletude mercantilista para ser aceito como um dos raros e promitentes diretores de curta-metragem; não sabe ele que apenas um projeto inscrito do norte será contemplado, “para não dizer que não falamos de cinema”, na condição corporativista na geopolítica desinteressada, apesar do esforço coletivo de alguns profissionais de desejar reverter essa situação em favor de uma demanda tão distante. “Mas essa é a realidade brasileira”, dizem alguns. E lavam as mãos!
De Roma para o Brasil, Pilatos se converteria se presenciasse o que os amazônidas fazem para produzir e apresentar um filme, edificado na caseira ilha de edição, mexendo aqui e ali, um botão lá e cá, e assim o caboclo aprende a editar seu próprio filme e vai fazendo sua revolução, silenciosa, mas revolução, a sua própria revolução. Assim se faz um movimento antropofágico com bases em ideais coletivos, que minam mentes e se multiplicam na luz de uma tela, pequenina às vezes, ampla noutras mínimas vezes.
Em lugares bem distantes, o “caboco da Amazônia” rala, rala, rema, rema para produzir imagens e recortá-la na percepção que lhe cabe, depois que tem acesso a uma pequena tecnologia que aprende a manusear sozinho; enquadra a lente e aperta o “play” em “rec” de emoções que somente ele compreende; volta pelo mesmo rio, ou segue trilhas entre mangues, matas virgens e devastadas; vê queimadas desenfreadas e percebe que precisa fazer algo de diferente; e navega, navega entre furos, igarapés e internets na busca de um “yotube” para divulgar sua produção, seu vídeo inacabado porque não sabe editar, melhor, sabe, mas não tem uma ilha de edição, um “computadorzinho”, com um “programinha” que possa atendê-lo na sua necessidade de realizador. Como seus filmes não têm onde ser guardados se perdem na capacidade limitada da câmera de armazená-los, para dar lugar a outros filmes, porque sua vontade de produzir é maior que a memória de seu chip ou do seu cartão de memória. Aí tudo se perde, e começa tudo de novo.
Na prática cotidiana desse ser nativo, vemos algo precioso que é a vontade de produzir imagens mesmo sem o interesse de ganhar subsídios para a sua subsistência. Muitos, ou quase todos na mesma situação, possuem atividades paralelas em suas comunidades na prioridade do sustento pessoal e da família. O prazer de criar roteiros audiovisuais não sistematizados pode lhe render uma rodada de amigos que chegam à volta para conferir sua produção, e a idéia de compartilhar imagens parte da necessidade coletiva de congregar sentimentos em volta de uma temática registrada no olho eletrônico, a mesma necessidade que nós, de centros urbanos, temos quando reunimos e socializamos filmes, nossos ou de outros, com problemáticas sociais, e chamamos isso de cineclubismo.
É claro que há diferenças estruturais no formato e no arranjo de apresentar a obra, são duas realidades diferentes; mas há algo em comum que ultrapassa a simples vontade de produzir e difundir um vídeo: atitude criadora, e isso poucos profissionais inveterados têm na dimensão de suas atitudes reprodutoras. O ato de criar ultrapassa a fronteira da vontade, e vontade todo mundo tem; estimular a capacidade criativa desses atores sociais também é um ato de criatividade, ou pela necessidade da profissão, ou pela necessidade inata de dividir o que já foi conquistado.
Portanto, não é sábio aquele que pensa em levar vantagens sobre os que ainda não dispõe de tecnologias mais avantajadas; não basta ficar somente na vontade de querer compartilhar recursos e saberes tecnológicos às regiões mais distantes dos grandes centros produtores de cinema; coloquemos em prática a atitude criadora de quem pode e deve compartilhar novas estratégias na produção de conhecimento. Lancemos a rede nos rios de saberes amazônicos, e veremos o quanto temos que nos alimentar. Poucos estudiosos têm essa preocupação de valorizar uma demanda tão desprivilegiada das oportunidades neurais do país. A nós urbanos, cabe um rasgo de lucidez para ampliar as lentes, as nossas lentes, biológicas mesmo, para tentar compreender essa real situação.
Como não somos Pilatos e nem viemos de Roma, somos nativos zoneadores __ faço aqui uma rápida alusão aos homens que por aqui passaram em busca de riquezas e deixaram um buracão enorme, como cratera, na serra de Carajás; levaram riquezas, um ouro material que nunca vimos e usufruímos como retorno de investimentos, e até hoje é assim – retorno a este texto como garimpeiro de outra realidade, na busca de um outro ouro que reluz por trás de homens e mulheres que lutam para manter vivas as mais diferentes manifestações culturais da nossa Amazônia, se de fato é nossa.
Nesse sentimento de pertencimento, trago à luz de um Fórum que se inicia neste espaço outros sentimentos de liberdade, de criação, de respeito a este povo que clama por outro sentimento maior, que é o sentimento de viver com dignidade, sem exclusão dos bens que a ele mesmo pertencem: a sua terra, o seu rio, sua floresta, seus saberes locais que nem de perto ousamos explicar, tamanha é a sua sabedoria. Por isso e por muito mais, o 1º Fórum Audiovisual da Amazônia Legal se configura, para tratar questões específicas de uma região rica em biodiversidade, única do continente, maior do mundo, e busca instrumentos reguladores legais de valorização aos saberes dos povos tradicionais amazônicos, sendo o cinema e a produção audiovisual trilhas nesta “selva capital” de interesses escusos. 
Continua...
Ao estabelecer diálogos com autores sobre as questões da Amazônia e seus povos, apresento Albagli (2003), ao referir-se sobre a definição do Conselho Mundial de Povos Indígenas (1977):
Povos indígenas são grupos de populações como nós, os quais, desde os tempos remotos, têm habitado as terras onde moramos; os quais são conscientes de possuir um caráter comum próprio, com tradições sociais e meios de expressão associados ao país herdado de nossos ancestrais; com uma língua própria nossa e tendo certas características essenciais e únicas que nos conferem uma forte convicção de pertencer a um povo, que tem uma identidade nossa e deve assim ser visto pelos outros.” (apud AXT et alii, 1993)[1]. Alguns aspectos estão geralmente presentes nas formas como se definem e caracterizam esses grupos sociais: uma história comum, cujo desenvolvimento sofreu um duro golpe com o processo colonizador; uma identidade étnica e sócio-cultural; e a ocupação ancestral de dado território. Tais grupos reivindicam direitos de caráter coletivo, como o direito à terra, aos recursos naturais nela existentes, à auto-determinação política e à cultura própria. No caso dos direitos relacionados à biodiversidade, alguns preferem o termo populações ou comunidades tradicionais, que abrangeria também, por exemplo, os agricultores que desenvolvem práticas tradicionais na agricultura. Outros ainda sugerem o termo comunidades locais como mais apropriado, referindo-se a “um grupo de pessoas possuindo uma organização social estabelecida, que as mantenha unidas seja em uma determinada área ou de alguma outra maneira (NIJAR, 1996).
Não importa o nome, a nomenclatura, se é comunidade, se é população, se são povos tradicionais... O que importa são os conteúdos expressionais significativos dessas pessoas enquanto indivíduos com identidades, vontades e atitudes próprias, que vivem como organização social estabelecida, com direitos e deveres, regidos pela mesma constituição. Esses grupos reivindicam sim seus direitos coletivos sobre seus saberes tradicionais, direito à terra, aos recursos naturais como meio e fim, direito aos recursos tecnológicos para produzir e finalizar seus filmes sem sofrer o processo de aculturação, se essa é a sua vontade. Não vamos polemizar se isso é certo ou errado, se alteramos ou não a configuração de uma cultura tradicional. A questão está centrada na acessibilidade de bens patrimoniais pertinentes a todos os brasileiros, indistintamente. É um processo de escolha que independe da nossa vontade, acontece em vias de mão dupla na partilha de conhecimentos e de bens materiais. É um direito deles e nosso.
Alguns estudiosos defendem em suas pesquisas o conhecimento tradicional dos povos amazônidas passado pela oralidade, de geração em geração, na ausência do papel, da escrita, da escola tradicional jesuítica que, historicamente, mutilou línguas e costumes tradicionais de etnias diversas. Muitas dessas línguas se perderam e estão se perdendo com a migração de jovens produtores nativos na busca da “civilidade” urbana; algumas etnias resistem ao nomadismo e desejam permanecer natura, ainda que cheguem novos signos e códigos interferindo no seu cotidiano “primitivo”.
Na contramão do que imaginamos, não é comum, quando em vez, ver um representante de uma etnia tradicional manipulando uma câmera em algum encontro institucional ou na ilustração de algum raro artigo acadêmico em estudo antropológico. Da mesma forma que buscamos estratégias para perpetuar nossa memória, esses povos também buscam a memória eletrônica. Em ambos os casos, nem por isso deixamos de falar a língua que nos foi ensinada, e continuamos a utilizar todos os recursos eletrônicos inventados e que podemos usufruir.
Ao limpar das lentes, nos deparamos com algumas culturas audiovisuais realizadas na Amazônia, que se organizam e se consolidam como associações, grêmios, assembléias, coletividades e sociedades organizadas, e nos surpreendemos com a qualidade de conteúdo de suas obras. Em processo bem adiantado, um pouco distante do caboco de produção inicial, esses realizadores já têm uma expressão cinematográfica que não pode ser desprezada. Temos exemplos concretos destes movimentos, às vezes intermediados por nós mesmos no desejo de ajudá-los, na verdade são eles que nos ajudam a entender o processo inverso de se construir conhecimento. “Cada ponto de vista é a vista de um ponto”, diz Sousa Santos (2005). 
 A busca para uma política de produção cinematográfica com qualidade na Amazônia Legal passa por grandes desafios, e que aqui se manifesta como carta magna em desejo coletivo de todos que consolidaram este movimento, FAAL; o momento é raro, ainda que distante, como utopia, devemos aproveitá-lo e construir uma história.
Com bases justas para o país, o nosso Brasil, principalmente para esta população Amazônida, é preciso ainda:
a)   Investir em ciência, tecnologia e educação -- voltadas para ampliar recursos orçamentários do Ministério da Cultura, Ministério da Educação, Ministério da Educação, Ministério da Ciência e da Tecnologia, e outros Ministérios, como ação cultural coletiva priorizando a produção audiovisual da região norte brasileira;
b)    Criar estratégias de controle e fiscalização na legislação brasileira para evitar a pirataria audiovisual in natura que dispomos, por parte das produções cinematográficas estrangeiras, sob pena de multa e indenização pelo uso não autorizado de imagem e som da Amazônia Legal;
c)    Fortalecer o STIC, Sindicato dos Técnicos e Investidores Cinematográficos no Brasil, dando bases jurídicas de direitos aos profissionais de cinema nele credenciados, e fazer valer a valorização estipulada em tabela nacional, não cabendo mais o profissional audiovisual da Amazônia Legal ser refreado e contido enquanto realizador;
d)    Valorizar os professores e instrutores profissionais do audiovisual nativos e residentes na Amazônia legal há mais de dois anos comprovadamente, na mesma condição do item anterior;
e)    Criar cursos de formação técnica para o audiovisual em todas as capitais dos estados que constituem a Amazônia Legal e seus municípios pólos.
f)     Reconhecer os cursos técnicos do audiovisual como atividade complementar acadêmica para os cursos de graduação nas mais diferentes áreas de atuação, considerando o audiovisual uma atividade [trans]disciplinar;
g)    Criar Linhas de Pesquisa de Cinema e Vídeo nas Universidades e Instituições de Ensino Superior, com foco nos saberes tradicionais dos povos da Amazônia Legal;
h)   Criar Cursos Stricto sensu, Lato Sensu, Graduação, de Extensão Cineclubista para pesquisa e formação profissional nas Universidades Federais dos Estados da Amazônia Legal;
i)     Ampliar os Núcleos de Produção Digital, câmeras digitais, equipamentos de som, kits de iluminação e correlatos, e democratizá-los por meio de ações conjuntas e descentralizadoras em todos os estados e/ou municípios pólos da Amazônia Legal, ficando os profissionais do audiovisual responsáveis pela tutela dos equipamentos;
j)      Inserir e/ou ampliar nas escolas instrumentais de produção audiovisual como instrumento de produção de conhecimento em caráter multi-trans-interdisciplinar;
k)    Criar mecanismos alternativos e diferenciados de produção e difusão audiovisual na Amazônia Legal, considerando a logística de transporte e fonte de energia, com a concessão de geradores e barcos com geradores para a viabilização de projetos cineclubistas de produção e exibição de filmes e/ou vídeos regionais.
l)     Reconhecer a importância e oferecer condições para que esses conhecimentos “tradicionais” sejam não apenas protegidos, mas para que também continuem a ser gerados e valorizados pelos instrumentos de difusão audiovisual para o Brasil e para o mundo.
Com essas reivindicações, encerro este texto com uma citação de Albagli (2003), ao fazer a abertura nos anais do Seminário "Saber Local/Interesse Global: propriedade intelectual, biodiversidade e conhecimento tradicional na Amazônia"[2], estudo este que reuniu intelectuais do Brasil e do Mundo, entre profissionais da educação, antropólogos, sociólogos, cientista sociais de diferentes áreas de estudo, que se preocupam com os povos e saberes tradicionais da Amazônia. Diz a autora:
Finalmente, devo assinalar que a temática da biodiversidade pode vir a ser não apenas expressão ou resultado de uma dinâmica geopolítica global, mas também um elemento de mudança no desenvolvimento futuro desse quadro mais amplo, a partir do processo político que se estabelece ao seu entorno. No novo regime internacional sobre a biodiversidade, afirma-se a soberania dos Estados-Nações mais vulneráveis no sistema internacional sobre suas reservas de natureza, ante as pressões e a cobiça de interesses externos; ao mesmo tempo em que esses mesmos Estados são chamados à responsabilidade no sentido de tomarem medidas efetivas de proteção do meio ambiente [contraditório com o advento da Belo Monte – grifo meu]. Coloca-se, ainda, em evidência a urgência de se reverterem práticas milenares de saqueio e exploração de riquezas naturais, contemporaneamente renovadas com a chamada biopirataria internacional [nossas imagens também são biopirataria audiovisual – grifo meu]. Impõem-se, por outro lado, as pressões para elevar à condição de atores, cujos direitos, opiniões e modos de vida sejam respeitados e garantidos, populações, historicamente, marginalizadas e submetidas ainda hoje à ameaça de genocídio - não só cultural, mas de fato [latifúndio e grilagem de terra – Idem]. E, por fim, coloca-se como central o questionamento sobre a tendência à hegemonia do mercado, e a necessidade de recuperar a ética e de resgatar o valor intrínseco da natureza e da vida. A questão da biodiversidade [e do audiovisual brasileiro – Idem], em sua forma contemporânea, coloca, então, uma agenda de temas que apontam para a necessidade de um novo desenho geopolítico pautado na democracia política e social.
Aos amigos que se reúnem em Atibaia, deixo esta minha contribuição para que seja socializada, ampliada, discutida e usada de alguma forma. Não quero inventar a roda, mas, talvez, outras formas de saber aproveitá-la na trilha que percorremos. Olhem com carinho a Amazônia, o FAAL que ora desenhamos ainda com desconfiança. Precisamos de todos, indistintamente, para abrir caminhos, percorrer trilhas, navegar rios, e levar o cinema tupiniquim como bandeira a todas as nações brasileiras e promover uma insurreição cultural do cineclubismo que se fortalece a cada dia.
Na sequência dos fatos, pós-encontro do Conselho Nacional de Cineclubes Brasileiros em Atibaia, estado de São Paulo, transcrevo na íntegra a carta que resume as proposições sobre cineclubismo e audiovisual brasileiro:
CARTA DE ATIBAIA DO CNC
A direção do CNC - Conselho Nacional de Cineclubes Brasileiros – reunida de 09 a 11 de maio de 2011, durante o 6º FAIA - Festival de Atibaia Internacional do Audiovisual, vem reafirmar o seu posicionamento relativo aos seguintes pontos: - A continuidade das políticas culturais, das conquistas e dos espaços institucionais de participação alcançados pelo CNC; - A manutenção, ampliação e garantia dos recursos necessários a continuidade do Programa Cine Mais Cultura, conforme anunciado pela Secretária do Audiovisual, Ana Paula Santana, e confirmado pela Ministra da Cultura, Ana de Hollanda, na última reunião do Comitê Consultivo da SAV, realizada em Brasília nos dias 14 e 15 de março de 2011; - A inclusão do cineclubismo no sistema educacional brasileiro, através da implantação de cineclubes nas escolas, com base nos conteúdos e métodos que vem sendo desenvolvidos no movimento cineclubista a exemplo do projeto “Cineclubismo, Cinema e Educação”; - A reavaliação do Programa Cinema Perto de Você, desenvolvido pela Ancine, e implantação imediata de salas populares de cinema, em todos os municípios brasileiros, utilizando o modelo POP Cine, que garante a ampliação da cota de tela para a exibição da produção audiovisual nacional; - O apoio a proposta de reforma que atualiza a Lei do Direito Autoral, em vigor, especialmente, nos itens que se referem à democratização do acesso do público aos bens culturais e ao fortalecimento dos direitos do público; - A garantia efetiva de destinação de recursos e do seu não contingenciamento à cultura conforme disposto na PEC 150, atualmente em tramitação no Congresso Nacional; - O apoio à aprovação do PLS 116, atualmente em tramitação no Senado Federal, conforme o texto já aprovado pela Câmara de Deputados; - O apoio a imediata aprovação do projeto que institui o vale cultura, solicitando-se a inclusão de dispositivo que garanta sua utilização apenas para o acesso aos bens culturais originários de países signatários da Convenção pela Proteção e Promoção da Diversidade das Expressões Culturais (Convenção da UNESCO) ; - A solicitacão da imediata exclusão da proposta da LDO - Lei de Diretrizes Orçamentárias - de 2012, encaminhada pelo governo para apreciação e aprovação pelo Congresso Nacional, do item que a exemplo do artigo 20, inciso XIII, da Lei de Diretrizes Orçamentárias, atualmente em vigor, criminaliza o conjunto das entidades culturais brasileiras e impede o repasse de recursos públicos pelos Ministérios da Cultura e do Turismo para realização de “eventos”; - O apoio as imediatas implantações do Plano Nacional de Cultura, da construção dos Planos Setoriais, em especial o Plano Setorial do Audiovisual e do Plano Nacional de Banda Larga; - O apoio a imediata votação e aprovação do projeto de Lei de Reforma da Lei Rouanet (Procultura); - A solicitação da imediata criação de um grupo de trabalho, composto por representantes do executivo e legislativo federais e entidades da cultura da sociedade civil, objetivando a formulação de propostas de mudanças na atual legislação, normas e atuais trâmites burocráticos, norteadores da apresentação de projetos , tramitação e prestação de contas. Destacamos ainda a relevância da instituição do "Dia do Público”, proposto pelo cineclubista Felipe Macedo e criado durante as reuniões do CNC, neste festival, a ser celebrado a cada ano, em 10 de maio. Nesta data, no ano de 1849, em Nova Iorque, ocorreu a Revolta do Astor Place, onde o público se manifestou de maneira ruidosa mas pacífica pelo acesso irrestrito aos bens culturais, as autoridades e as forças policiais praticaram uma repressão sangrenta, com mais de 20 mortos e uma centena de feridos. Para finalizar destacamos a relevância histórica da eleição do cineclubista João Baptista Pimentel Neto para presidente do CBC – Congresso Brasileiro de Cinema. Agradecemos a Prefeitura da Estância de Atibaia, Difusão Cultural de Atibaia, Difusão Cineclube, Secretaria do Audiovisual e Ministério da Cultura por, mais uma vez apoiarem a realização da reunião da diretoria do CNC – Conselho Nacional de Cineclubes Brasileiros. Atibaia, 14 de maio de 2011. (a) DIRETORIA CONSELHO NACIONAL DE CINECLUBES BRASILEIROS (2010-2012).
Nesse contexto, percebe-se que se desenham políticas públicas voltadas ao seguimento em foco, e acredita-se que estas políticas possam contemplar todo o território nacional, inclusive a Amazônia Legal, objeto deste ensaio, que se manifesta em canto das Iaras e Curupiras, das Matintas e Macunaímas, e busca reconhecimento e apoio às mais distantes imagens e sons produzidos como produto audiovisual brasileiro.
No complemento da Carta, apresento também o Projeto Uni Escola Cinema como alternativa de se chegar às escolas pela veia cineclubista, como contribuição às iniciativas que se desenham em favor da temática “Cineclubismo, Cinema e Educação”; dizer que o Uni Escola Cinema abraça quatro municípios do interior do estado como projeto de extensão universitária da Universidade do Estado do Pará, Campus Vigia de Nazaré. Antes, era apenas um simples cineclube com pretensões audaciosas, dirigido por um sonhador que não sonha sozinho. São escolas e comunidades, professores, alunos e gestores educacionais que se reúnem para assistir e produzir vídeos documentários, alguns de ficção, com seus olhares e linguagem própria, como estratégia para a produção de conhecimento em ação interdisciplinar.
A exemplo desta experiência, muitas outras são silenciadas pelo distanciamento e interesse de [não]reconhecê-las, pelas questões geoeconômicas e geopolíticas colocadas como escudos de uma justificativa sem fundamentação. A exemplo desta experiência, índios, negros, comunidades tradicionais outras da Amazônia possuem produções audiovisuais na redundância deste texto para enfatizar o nosso canto, e que somam às forças do movimento nacional e se vêem representados na carta supracitada. Parantim espera, ora se espera. Enquanto isso produz oxigênio para todos sobreviverem e contarem histórias.
Referências:
ALBAGLI, S. Informação e geopolítica contemporânea: o papel dos sistemas de propriedade intelectual. Informare . Caderno do Programa de Pós-Graduação em Ciência da Informação, Rio de Janeiro, v.3, n. 1-2, 1997.
AXT, Josephine R. et alii. Biotechnology, indigenous peoples and intellectual property rights. CRS Report for Congress. April, 1993.
NOPOLITANO, Marcos. Como usar o cinema em sala de aula. São Paulo: Contexto, 2003.
NIJAR, Gurdial Singh. In defense of local community knowledge and biodivesity. A conceptual ramework and the essential elements of a rights regime. Penang: Third World Network, 1996.


[1] Doutoramento, como aluno especial, nas disciplinas: “Análise do Discurso Narrativo” e “Linguagem e Interpretação: uma introdução ao projeto teórico de Clifford Geertz”, pelo Centro de Filosofia e Antropologia da UFPA; doutoramento, como aluno  especial, na disciplina “Antropologia Social” pelo Núcleo de Altos Estudos Amazônicos - NAEA/UFPA; Mestrado em Educação pela Universidade do Estado do Pará – UEPA, com a dissertação “A Educação no Museu do Marajó: ver, tocar e contextualizar"; Especialização em Semiótica e Cultura Visual pela Universidade Federal do Pará; Especialização em Recursos Humanos em Educação pela Universidade Federal de Pernambuco; e Especialização em Docência no Ensino Superior pela Pontifícia Universidade Católica de Minas Gerais – PUC Minas. Atualmente é Professor da rede de Ensino Superior e colaborador do Grupo de Pesquisa Cultura e Memórias Amazônicas da UEPA; tem experiência em Artes Cênicas e Audiovisuais (Cinema e Vídeo); estuda os Saberes do Museu do Marajó. É autor de artigos científicos e co-autor de livros acadêmicos na área de cultura e saberes amazônicos. www.unescolacinema.blogspot.com
[2] do Seminário saber Local / Interesse global: propriedade intelectual, biodiversidade e conhecimento tradicional na Amazônia (2003: Belém / Pa) [Anais] do Seminário Saber Local / Interesse global: propriedade intelectual, biodiversidade e conhecimento tradicional na Amazônia (2003: Belém/Pa).

quinta-feira, 22 de setembro de 2011

Cineclubismo à nado --- vejam o rico relato de um cineclubista amazônida

https://picasaweb.google.com/112206777797826368796/CineclubeCabanoNoRioDoce#

Sessões de cineclubismo e o direito ao acesso as novas tecnologias 

por Rodrigo Ethnos



O cineclubismo é um movimento cultural que já atua há muitos anos no Brasil e consiste em organizar sessões de cinema e promover diálogos sobre o tema do filme e sobre o próprio cinema. Pelo seu caráter esclarecedor, crítico e revolucionário o cineclubismo passou a ser uma excelente ferramenta para os movimentos sociais que vêem nesta atividade uma forma de se contrapor a hegemonia midiática das grandes corporações. Como eu já trabalhava produzindo um cineclube em um centro afro-religioso e resolvi que faria sessões nas ilhas de Abaetetuba também. Eu estava iniciando no movimento cineclubista paraense, que é muito atuante tendo vários cineclubes funcionando e várias organizações como a PARACINE, Federação Paraense de Cineclubes que representa uma boa parte destes cineclubistas no CNC, Conselho Nacional de Cineclubes. O poder informativo e pedagógico de uma ação cineclubista se constrói na reunião de pessoas e a comunhão delas através do cinema, utilizando esta ferramenta para além do entretenimento alienado. Como havia dito, eu estava iniciando no movimento, ainda conhecia poucas ações cineclubistas voltadas para o espaço escolar, voltadas para as ilhas da Amazônia menos ainda. Devido a geografia do lugar e a dificuldade de acesso, as ilhas de Abaetetuba ainda se abastecem de energia gerada por motores a diesel ou gasolina o que não dava garantias para se ter uma energia estável, o que me preocupava muito pois até hoje ainda estou pagando o meu projetor e a caixinha de som que comprei para realizar as sessões. Mas o problema foi resolvido com uma régua estabilizadora. Este problema! Já realizar as sessões era uma aventura épica. Primeiro, atravessar baias, furos e igarapés em canoas, rabudos e rabetas com equipamentos que ainda não estavam nem pagos. As embarcações construídas pelos ribeirinhos são muito boas e seguras, pelo menos para aqueles que tem condições de ter esses bens e de mantê-los. Como nos últimos anos, aumentou o poder de aquisição destas famílias, gerando mais acesso a créditos e financiamentos, isso possibilitou um aumento no numero de embarcações a motor e o tráfego em algumas partes dos rios. A construção das embarcações assim como pilotá-las é um aprendizado que passa de pai para filho, ou seja, aprende-se com a prática, com isso, hoje em dia é comum ver crianças pilotando essas embarcações nos rios de Abaetetuba, o que aumenta também, o número de acidentes fluviais nesta região. E fazendo parte desta estatística, o professor que vos fala com todos os equipamento do cineclube. A estória só teve um final feliz graças à tripulação e ao comandante “Garça”, no caso, eu e a mãe dele que tivemos iniciativa de remar até à margem enquanto o comandante tentava tapar o buraco no fundo do barco, aberto depois de colidirmos com uma outra rabeta (embarcação) que vinha na contramão do rio, pilotada por um jovem, que por coincidência estudava na escola que trabalhávamos naquele momento. Quando conseguimos alcançar a margem arremessei os equipamentos do cineclube para um arbusto. É claro que eu estava preparado para essas situações quando decidi fazer esse trabalho. Depois de assegurar a integridade física dos equipamentos comecei a pensar em como expandir esta aula para a comunidade? Como fazer com que o cineclube seja atuante na comunidade? Desenvolvi a seguinte estratégia para trabalhar com os alunos da 7ª série e 8ª series do ensino fundamental. Primeiro apresentei a eles um breve histórico do movimento cineclubista, sobre o seu poder de informação e de conhecimento. Depois apresentava os equipamentos, fazendo eles ligarem e desligarem os equipamentos ,conectarem os cabos, saber quanto custa, como paguei e que principalmente, pra mim, aquilo tinha sido um investimento naquele momento de troca de saberes. Percebi de inicio, que para alguns estudantes aqueles equipamentos pareciam ser maquinas caríssimas e complicadas de manusear, então foi importantíssimos certos esclarecimentos, mas também coloquei que aqueles equipamentos deveriam ser cedido pelas escolas, todas as escolas devem ter acesso a esses equipamentos, é um direito dos estudantes e que precisávamos ter consciência daquilo pra poder garantir a mudança. Falamos sobre os gêneros do cinema, documentário, ficção, dramas, comédia, tipos de filmes, hollywoodianos, clássicos, brasileiros, desenhos, animações .Escoliamos três gêneros para assistir e discutir a relevância de determinado filme para a localidade. Depois de escolher o filme, discutíamos como iriamos divulga-lo na localidade e designávamos funções do tipo, quem iria girar o motor de energia, quem esticaria a panada, quem cuidaria do livro de assinaturas e fazíamos coleta pra comprar óleo caso a escola não tivesse. Nestas discussões tínhamos que escolher um horário que fosse de acordo com a maré, pois ela enche e seca todos os dias, e se a maré baixasse muito, alguns furos secariam não permitindo a volta de alguns para suas casas. Mas os alunos conhecem o rio como conhecem a si mesmo, e sabiam o tempo exato que podiam ficar. Para divulgação estudávamos sobre os cartazes, sua historia e como produzi-los usando materiais e técnicas de baixo custo como pintura, molde vazado, colagens. Os alunos produziam os cartazes e levavam pra fixa-los próximo a suas casas, em pequenos comércios e nas igrejas. No dia da exibição constatei que a ação tinha dado certo, apesar de alguns contratempos, estávamos realizando a sessão com a presença dos pais e da comunidade. Também constatei a eficiência e a importância daquela ação enquanto pratica politica e principalmente transformadora na educação formal.Todos os registros desta ação pode ser visualizado no linck abaixo.

https://picasaweb.google.com/112206777797826368796/CineclubeCabanoNoRioDoce#



Rodrigo Ethnos
Professor/artista

Revista de Cinema conteúdos de nossos filmes e experiências de realizadores

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quarta-feira, 21 de setembro de 2011

38ª Jornada Internacional de Cinema da Bahia anuncia cinema e audiovisual na educação

e mais Izabel Melo, Marco Bridge, Verinha Poeta e outros


O crescimento do Cineclubismo por Élida Aragão

Postada em 25/03, 13hs...
 
Entrevista a Élida Aragão – 23/3/2011, no quadro de sua monografia no curso de Comunicação Social/Jornalismo, Faculdade São Luís, São Luís, MA
 
         As questões que se seguem são muito interessantes e bastante abrangentes. Nos limites de uma quase correspondência, minhas respostas são extremamente resumidas, sintéticas, simplificadas, portanto um tanto esquemáticas, omitindo aspectos, nuances e outras características que nos casos concretos fazem muita diferença. Algumas respostas remetem a trabalhos mais extensos que desenvolvi; outras se misturam um pouco, ligando mais de uma pergunta.
 
Qual sua concepção sobre o cinema, enquanto Instituição, espaço da coletividade?
 
         A historiografia atual reconhece o cinema como instituição e o denomina justamente assim – e, o fazendo, distingue esse cinema das formas anteriores, “primitivas” (segundo Noel Burch) ou “de atrações” (Tom Gunning, André Gaudreault, etc) – a partir do início da segunda década do século XX e da institucionalização, padronização e hegemonização de formas e modos de produção, expressão, recepção. O cinema-instituição seria praticamente identificado com o modelo de cinema hollywoodiano, dominante a partir dessa época um pouco indefinida, por volta de 1914, uns anos a mais ou a menos.
 
         O problema que vejo nessa compreensão é que ela meio que estabelece ou sugere um domínio estável e permanente do referido modelo, pelo menos até depois da segunda guerra mundial, senão até hoje. De certa forma, o cinema-instituição passa a ser o próprio cinema, ainda que estivesse implícita a destruição de formas alternativas de expressão audiovisual.
 
         Eu penso que o cinema é fundamentalmente uma relação social, uma tensão sempre renovada entre a criação e a recepção, mediada pelo modelo econômico e social. É indiscutível que existe um cinema hegemônico, justamente instrumento de dominação e fabricação de consenso ideológico, e que se identifica aproximativamente em formas estéticas e em modelos de produção e de recepção institucionalizados, fundamentalmente no plano do mercado. Mas essa superestrutura é contraditória, dialética; sempre existem modelos alternativos que apontam para a superação desse padrão dominante. E essa antinomia é a expressão de uma contradição básica essencial, entre as classes sociais fundamentais, pelo domínio e direção da sociedade, e que faz parte de todas as etapas do processo do cinema e do audiovisual. Assim, o público (a forma contemporânea do proletariado, isto é, dos que não têm acesso aos meios de produção e representação audiovisuais) está presente em todos os momentos, especialmente da criação (até porque só o trabalho cria; o capital não: ele organiza e distribui): a hegemonia não é um estado permanente e estável, mas um processo contraditório.
 
         O cinema-instituição se apoderou do mercado, mas paralelamente continuaram as vanguardas, os cinemas nacionais, as formas de resistência do público – das quais o cineclube é a instituição mais estável e generalizada. Dentro de cada filme essa dialética está presente, geralmente pela temática e narrativa ligada aos interesses do público, mas “controlada” pela orientação ideológica do Capital que controla a (maior parte da) produção. Mesmo os filmes hollywoodianos frequentemente retratam as corporações, os grandes financistas, o imperialismo, o racismo, segundo uma espécie de senso comum (ou bom senso) popular que é nitidamente anticapitalista. Mas, ao final, a ordem e a harmonia são recuperadas, em edificantes happy endings, preservando “o único sistema possível”.
 
         De maneira muito resumida, o estabelecimento do cinema-instituição, o predomínio do modelo hollywoodiano, se deu justamente no quadro de uma luta muito concreta em que o público teve que ser coagido (censura, normas, etc), controlado (leis, estímulo à freqüência de segmentos mais abastados, “lanterninhas”, etc) e finalmente convencido (longa-metragem de ficção linear e literário). Essa batalha se deu principalmente entre o estabelecimento das salas fixas e o final da primeira guerra mundial, com a instauração inicial do controle do mercado mundial pelo cinema americano.
 
         Durante essa batalha é que surgem os cineclubes, que vão se tornar os principais núcleos de resistência e de produção de outras instituições do público contra as estruturas do capital: vanguardas, crítica, cinemas nacionais, cinematecas, festivais de cinema, etc.
Segundo dados do IBGE/2008, somente 13% dos brasileiros vão ao cinema, e de forma esporádica. Na sua opinião, isso se deve a quê?
         Estou te enviando meu texto O Modelo do Cinema Brasileiro (publicado como O Modelo Brasileiro: um estrangeiro em nossas telas, em Moraes, Geraldo (org.) 2008. O Cinema de Amanhã – Brasília – Congresso Brasileiro de Cinema, Coalizão Brasileira pela Diversidade Cultural), que pretende ser uma resposta a esta questão.
A desigualdade social é determinante para afastar o público do cinema? Por quê?
         Como disse, esta questão está tratada com mais profundidade no ensaio O Modelo do Cinema Brasileiro. Modelo que é, na verdade, mundial, e o texto procura mostrar a maneira como o Brasil (e praticamente todo o Terceiro Mundo, sem grandes diferenças) se enquadra dentro dele. Para dominar o mercado mundial do audiovisual, com o ciclo de “janelas” de exploração dos produtos (cinema, vídeo caseiro, TV a cabo e TV aberta), Hollywood estabeleceu um modelo de custo elevadíssimo – que só se paga, justamente, na escala que apenas a indústria de Los Angeles pode explorar. Dentro desse padrão, o custo do ingresso de cinema é alto demais para o poder aquisitivo da maioria da população dos países menos desenvolvidos – o que não tem importância para o negócio, pois esses públicos entrarão em outras etapas do mercado. Mas é isso que exclui cerca de 90% da população brasileira do acesso ao cinema e percentuais até mais altos, chegando mesmo virtuais a 100% em certos países africanos onde praticamente não há mais salas de cinema.
         No texto mencionado, mostro que nem sempre foi assim. Dos começos do cinema – que são essencialmente populares, de operários e imigrantes - até os anos 70, a estratégia foi outra e o ingresso era cerca de 20%, ou mesmo menos, do preço atual, gerando um modelo de consumo generalizado e popular.
         Com o modelo atual, a maioria do público não está apenas afastado do acesso às salas, mas também ausente das objetivas, das histórias, narrativas (exceto como exotismo ou horror), dos estilos. E das políticas públicas.
Na literatura sobre cineclubismo se fala em prática cineclubista e movimento cineclubista, o que os distingue?
         Literatura sobre cineclubismo? Você é bem otimista. Eu também sou, e acredito que estamos perto de começar a constituir uma, por causa de uma nova geração de pessoas interessadas, como você.
         Movimento cineclubista designa a dimensão coletiva, integrada, da vontade e ação dos cineclubes em um determinado espaço e momento. Movimento, não é? Infelizmente são muito comuns, praticamente em todos os países onde existe cineclubismo, os períodos de desarticulação – em que os cineclubes diminuem extraordinariamente em número sem, no entanto, desaparecerem – intercalados com momentos de grande atividade, unidade e intervenção na realidade do cinema e da sociedade.
         Exemplos de grandes momentos de movimento cineclubista são a década de 20 e o pós-II Guerra, na Europa; ou os anos 50 e 60, e a resistência à ditadura entre os anos 70 e começo dos 80, no Brasil. Por outro lado, coincidindo com a chamada globalização, nos últimos 20 anos do século passado, praticamente em todo o mundo houve um grande refluxo do movimento. É preciso, no entanto, ver com certo distanciamento esses exemplos mais óbvios, tanto num sentido como no outro, pois o cineclubismo é muito marginalizado pelos meios de comunicação e pelos ambientes acadêmicos, além de ser uma atividade essencialmente coletiva, que raramente revela “grandes nomes” para o interesse convencional das mídias e outros observadores. A história do cineclubismo – e do público - está toda por pesquisar.
         Acho que práticas cineclubistas designam as atividades típicas de cineclubes. Christophe Gauthier (La passion du cinéma – cinéphiles, cinéclubs et salles spécialisées à Paris de 1920 à 1929 – Paris : Association française de recherche sur l’histoire du cinéma – 1999) fala no conceito de protocolo cinéfilo e o livro de Antoine de Baecque, A Cinefilia, recém lançado no Brasil, também propõe uma classificação de atividades, e mesmo de comportamentos e rituais, para se estudar o que eles chamam de cinefilia (que eu considero um conceito elitista, que não se confunde com cineclubismo; mas isso já é outra história). Mas, nessa linha de classificação, haveria certamente uma espécie de protocolo cineclubista, com práticas que surgiram da atividade cineclubista e são geralmente associadas aos cineclubes: o associativismo, as apresentações antes dos filmes, o debate, as publicações, as fichas de filmes, as sessões semanais, entre muitas outras. Mas a verdade é que quase todas essas “características” eventualmente deixam de estar presentes, não são praticadas (ver, sobre isso, O que é cineclube, em http://cineclube.utopia.com.br/, e Hegemonia e Cineclube, em http://www.felipemacedocineclubes.blogspot.com/). Hoje, no Brasil, há uma sensível mudança, que eu penso ser provisória e conjuntural (mas posso estar errado) e se dever à forte subordinação das iniciativas cineclubistas ao Estado, aos interesses dos realizadores individuais (em oposição à produção cineclubista, coletiva e despersonalizada) e, em última instância, ao individualismo e empreendedorismo que decorrem da ideologia do capital. Nesse quadro quase desapareceram o associativismo como base de autonomia do cineclube e diversas práticas coletivas dentro do cineclube (alguns cineclubes alienam, ou privatizam sua própria programação – atividade justamente coletiva e democrática - a “curadores”, por exemplo. Mais adiante falaremos da “programadora” do Estado). O elo de unidade de ação nacional é hoje extremamente tênue e fortemente centralizado. O modelo de movimento, justamente, mudou, com raras instâncias de reunião, debate e ação comum dos cineclubes. O que não acontece em outros países.
         Também expressão deste quadro, houve uma certa tendência a se falar em “práticas cineclubistas” em qualquer contexto (por exemplo, desenvolvidas por entidades como SESC ou prefeituras) no momento em que aconteceu o embate entre uma concepção do cineclubismo como essencialmente democrático e coletivo e a idéia de constituir (apenas) um circuito de exibição para o cinema brasileiro, em particular para o curta-metragem, no uqardo da instalação do programa Cine+Cultura, do ministério da Cultura. Esse conflito resultou no meu afastamento (início de 2009) da direção do movimento e da coordenação dos conteúdos da formação (oficinas) oferecida pelo Cine+Cultura, inclusive com a censura integral de um manual cineclubista que eu escrevera sob encomenda do Conselho Nacional de Cineclubes (veja minha carta de renúncia em http://felipemacedocineclubes.blogspot.com ). Depois disso a discussão desapareceu e hoje se estende o conceito de cineclube, de forma bem liberal – e o adjetivo é bem preciso –, a quase qualquer prática de exibição. Um exemplo recente foi um esboço de mobilização em defesa de um “cineclube” oprimido pela prefeitura de uma pequena cidade, que depois demonstrou, constrangedoramente, tratar-se de uma querela local entre um funcionário municipal - que era o “cineclube”, isto é, sessões de cinema oferecidas pela prefeitura – e a administração municipal, descontente com o desempenho do servidor público.   
 
Qual a principal diferença do cineclubismo de ontem para o de hoje?
 
         Esta pergunta é muito genérica. Há vários ontens e vários hojes, e em diversos aquis, em diferentes partes do mundo. Nos anos 80 (O Movimento Cineclubista Brasileiro, CC Fatec), esbocei uma idéia de trajetória de crescente democratização na história do cineclubismo no Brasil. Resumindo brutalmente: no fim dos anos 20, o Chaplin Club começou como uma iniciativa das grandes elites da Capital Federal que, entretanto, trouxe pela primeira vez um sentido real de cultura cinematográfica para o País. Nos anos 40, o Clube de Cinema de São Paulo já era uma iniciativa mais aberta (mas que ainda fazia alguns debates em francês...) e que embasou uma difusão muito grande do cineclubismo pelo Brasil todo, nos anos seguintes. A Igreja, nos anos 50, expandiu ainda mais o cineclubismo, ainda que o mantendo sob sua rigorosa tutela. No fim dos anos 50 e começo dos 60, a politização da pequena burguesia estudantil generosamente já tentava “levar a cultura para o povo”. Mas foi nos anos 70 que o cineclubismo brasileiro tornou-se principalmente expressão das maiorias, organizando-se nos bairros e junto a movimentos populares, sem intermediações ou tutelas.  
 
         Atualmente é essa tradição que anima, senão a maioria, pelo menos uma grande parte dos cineclubes em suas experiências concretas, no plano local. Mas acho que essas práticas transformadoras não se coordenam nem se expressam num plano mais amplo, mostrando que a trajetória a que eu me referira não era uma “evolução” determinista. Hoje há uma espécie de retrocesso: a direção política do movimento é muito dependente do Estado, subordinada à produção do curta-metragem e aos “setores médios” da população. De certa forma, de volta à ação de “levar filmes”, paternalisticamente, “ao povo”. Mas, como já disse, há um número muito significativo de ações criativas, inovadoras e efetivamente populares efervescendo em todos os cantos do País – só que sua voz não se expressa ainda efetivamente como um movimento renovador do cinema e da sociedade, mas mais como um circuito complementar da produção e de programas governamentais.
O cineclubismo atual tem um caráter mais inclusivo?  
         Como disse mais acima: não. Embora haja numerosas experiências fascinantes de inclusão das comunidades nas incríveis oportunidades que oferece a tecnologia digital, o traço médio, geral, do cineclubismo brasileiro é o de viabilizar a exibição da produção de curta-metragem, a qual não tem força para reivindicar os mercados principais.
         Isso é conduzido sob um discurso “progressista”, sem dúvida, de defesa dos “direitos do público”, mas na prática reduz esses direitos apenas ao acesso aos filmes, não ao protagonismo do público nas políticas de cinema e cultura. Eu não conceituaria isso como inclusão, exceto numa acepção muito restrita, meio mercadológica (ainda que as estatísticas também sejam muito modestas).
         A deturpação dos princípios (de defesa dos interesses do público) leva, inclusive à falácia da própria idéia restrita de acessibilidade. Recentemente a Programadora Brasil divulgou dados de sua atuação no último ano. Atingiu um público de 200.000 pessoas, entre abril de 2010 e março de 2011, trabalhando com mais de 1.000 pontos de exibição. Isto significa um público anual de cerca de 200 pessoas por ponto de exibição, ou menos de 20 espectadores por mês - com sessões semanais! É cerca de um décimo do público dos festivais de cinema, que ocorrem uma vez por ano e são pouco mais de uma centena em todo o Brasil. Equivale também a mais ou menos 0,15 por cento daqueles 10% da população que vão ao cinema (110 milhões de ingressos/ano). Eu penso que sessões que atraem estatisticamente (o que é uma mera abstração) 4 ou 5 pessoas em média por semana podem muito provavelmente ser conseqüência de uma programação dirigida de fora para dentro (não é à toa que a distribuidora estatal se chama Programadora), de acordo com interesses (gostos, inclusive) que não são os das comunidades em que são realizadas. É claro que a isso se soma a precariedade das exibições, sem conforto e qualidade, que correspondem ao padrão decorrente do projeto e do material distribuído pelo Estado, como menciono a seguir.
Seu olhar sobre as políticas públicas de incentivo à atividade cineclubista no Brasil.
         Na Venezuela, a grande maioria dos cineclubes foi substituída atualmente por “salas populares” coordenadas pela Cinemateca nacional, que orienta sua prática, escolhe e programa os filmes. É um modelo com aspectos positivos, mas fundamentalmente autoritário (paternalismo e autoritarismo são expressões da mesma subalternidade reservada ao público); o Estado substitui a iniciativa popular. Estatiza a iniciativa popular – e essa foi uma das causa mortis dos governos socialistas, nos anos 90 do século passado.
         Guardadas as proporções – o Brasil tendo uma situação política geral simultaneamente mais conservadora, mas também mais liberal – é o que se está tentando implantar no Brasil. Talvez meio como farsa. O Estado venezuelano tem um projeto político nacional, também com traços de autoritarismo, e um ambiente político-social extremamente polarizado, em termos de classes, que se expressa também nessa política que poderíamos identificar como “cineclubista” (mas que não o é). Já os projetos do nosso MINC não são propriamente do Estado, que os viabiliza (também través da Cinemateca), mas de um segmento que hegemonizou aquela área: os chamados curta-metragistas ou abedistas. A brasileira Programadora Brasil não escolhe os filmes diretamente, “apenas” seleciona um corpus, um repertório de filmes, e estabelece regras rígidas para sua exibição (limita o número de filmes e sessões, combate a itinerância das projeções, entre outros exemplos). O programa Cine+Cultura, que distribui equipamento básico de projeção, descaracterizou a formação dos animadores locais em detrimento da integração ao sistema estatal. De forma mais mediada que na Venezuela, há um direcionamento para a exibição de curtas-metragens selecionados pelo governo, a partir de uma estrutura paupérrima (para não retirar recursos da produção) que, na maioria dos casos, não se estabiliza e não tem condições autônomas e permanentes de se sustentar. Reproduz e eterniza a dependência do “Estado” – que no Brasil está mais para “governo”, podendo suspender seu frágil apoio a qualquer momento, até por mudanças superficiais na gestão das instituições governamentais.
         Mas, como na Venezuela, é melhor que nada. Ou não? Mesmo tendo um espaço de expressão maior, as entidades cineclubistas brasileiras não questionam em nada essas políticas (sequer demandam melhorias ou mais recursos), levadas totalmente a reboque pelas iniciativas do Estado e da produção.
É possível utilizar o cinema, por meio da prática cineclubista, como forma de inclusão cultural e mudança social de uma comunidade? Se sim, de que forma?
         Cinema é uma termo polissêmico. A gente pode ir ao cinema, pensando principalmente na sala, mas também na metáfora das sensações que um abstrato cinema nos proporciona através de cada filme concreto.
         Esse processo geral e abstrato do cinema é determinado por relações sociais, estas sim concretas e muito variadas. O cinema não é progressista ou conservador, não muda nem conserva nada. As relações entre filmes concretos e espectadores concretos podem fazer isso. E estas podem se dar dentro de um sistema de relações (econômicas, políticas, psicológicas, etc) montado para privilegiar determinadas relações sociais e suas manifestações no plano ideológico; é o que o conceito de cinema-instituição descreve ou o que chamo de “modelo de cinema” em cada lugar e conjuntura.
         Diz-se que a atmosfera relaxante, a obscuridade das velhas salas de cinema contribuíam para a identificação com um universo fictício e geralmente destituído de contradições; ou que o ritmo frenético de planos curtos dos efeitos especiais concorrem para a distração e alienação. Na linha saudosista, eu mesmo ouvi um monte de depoimentos de pessoas que “descobriram um novo mundo” nas sessões do cineclube da sua cidade ou comunidade, fora dos horizontes estreitos promovidos pelo cinema comercial e pela “sociedade” local. Os cineclubes muda(ra)m as vidas de muita gente.
         Mas o mais importante é que os cineclubes são organizações do público, instituições do público organizado. São seu instrumento político, no sentido mais amplo possível – que vai do sentido gregário (pólis) à disputa do poder – para participar e influir decisivamente no processo do cinema. Hoje em dia, dado o modelo de que falamos, essa participação inclui a também a noção de acesso, dificultada pelo status quo. Mas não se limita a ela, ou não deveria.
         Os cineclubes não são um segmento corporativo do cinema, como a produção, a distribuição ou a exibição, entre outros. Ainda que organizações políticas e representativas, não são uma representação de interesses econômicos e/ou profissionais determinados, mas sim das necessidades difusas do público, da comunidade, em torno do audiovisual. E este é suporte, meio, mediação, etc. Os cineclubes são um segmento da sociedade, um movimento social, não uma “classe” profissional. Isto já estava implícito quando Louis Delluc cunhou o termo cineasta, no começo do século, referindo-se não ao autor ou artista colocado num pedestal, mas ao praticante de cinema integral: espectador crítico, produtivo e criativo. Ou, parafraseando Gramsci, “todo homem é artista, mas apenas uns poucos assumem esse papel n(est)a sociedade”.
        
                   Ora, o principal meio de, justamente, mediação das relações sociais no plano simbólico é hoje o audiovisual (do cinema à internet, passando pela TV), que atinge, aproxima, e busca integrar e controlar praticamente a totalidade da população mundial. Quando falamos em público estamos nos referindo ao que os teóricos cineclubistas italianos dos anos 70 (Filippo Maria de Sanctis, Fabio Masala) chamaram pela primeira vez de “proletariado moderno”: o conjunto dos desprovidos dos meios de produção e representação simbólicos (ver também Beller, Jonathan. 2006. The Cinematic Mode of Production: Attention, Economy and the Society of the Spectacle. Hanover: Dartmouth College Press).
         O cineclube é a única instituição estável, permanente e generalizada criada até agora com o escopo de organizar e representar esse público audiovisual. É evidente que os cineclubes são fragilíssimos (mas o próprio movimento sindical não é hoje uma sombra de seu papel em ocasiões pretéritas?) – exceto em alguns momentos históricos -, mas constituem o modelo institucional e organizacional do público, encarnam essa potencialidade de superação da alienação constituinte e disseminada pelo modelo comercial, capitalista, de cinema e de audiovisual. Os cineclubes são o embrião unificador do processo cinematográfico a partir do público, isto é, da totalidade da população explorada e alienada pelo Capital e pelas classes sociais a ele associadas.
         Em determinados momentos históricos, os cineclubes crescem em importância e força, transformando concretamente não apenas o cinema (o neo-realismo italiano, a onda de nouvelles vagues, cinemas novos – incluindo o brasileiro -, cinemas-verdades do pós-guerra são todos originários do movimento cineclubista – assim como a maioria dos cinemas nacionais dos países menos desenvolvidos), mas toda a sociedade, sendo parte de processos de democratização e de justiça social que geralmente acompanhavam (ou vice-versa) as renovações dos cinemas.
         Num quadro em que o audiovisual ocupa papéis cada vez mais importantes nas relações sociais, a potencialidade do cineclubismo – e de novas formas de cineclubismo - como movimento representativo do público só cresce.   
         E é importante lembrar que, por suas contradições internas – que o definem – o modelo hegemônico de cinema abandonou a exibição em salas de cinemas como seu principal instrumento de difusão, levando a esta situação de exclusão da maioria quase absoluta das populações de países menos avançados, como o nosso. Penso que mais que os aspectos negativos associados a esse quadro, essa condição constitui uma real oportunidade de ocupação de espaços sociais e do imaginário por parte do público. Os cineclubes pode(ria)m ocupar esse espaço de 90% ou mais da população que já não conhece cinema, a não ser as produções americanas mais recentes, em telas mínimas, entremeadas de interrupções publicitárias.
         Para quem, como eu, acredita que as transformações sociais decorrem da tomada de consciência dos excluídos e de sua capacidade de formular e expressar sua visão de mundo, o cineclube é virtualmente o ambiente,  ferramenta e arma para desenvolver essa auto-consciência do público.